Cantarinha das prendas, de Maria Fernanda Braga (altura: 20cm)

A “cantarinha das prendas”, caraterizada pela profusa decoração, era vendida nos bazares de prendas, em festas populares, daí a sua denominação. Foi premiada em exposições nacionais e internacionais e, desde então, passou a ser também romanceada e apelidada de “cantarinha dos namorados”.

Essa última perspetiva leva a interpretar simbolicamente cada um dos elementos desta peça emblemática da olaria vimaranense. Assim sendo, a cantarinha maior significa a abundância perene que se deseja ao futuro casal, semeada de ilusões e esperanças. A cantarinha menor, aquela que há-de encher a maior, despida de enfeites, significa a vida real, as incertezas do amanhã, o pão-nosso de cada dia, tudo aquilo que faz a felicidade do lar, o valor da família, o amor incondicional de mãe que tudo sacrifica ao bem-estar da sua prole, enquanto o homem, ausente, labuta no amanho da terra que lhes dará o sustento.

Quando um rapaz escolhia aquela que deveria ser a sua companheira fiel por toda a vida, e se dispunha a fazer o pedido oficial aos pais da “futura”, primeiro oferecia à namorada uma cantarinha das “Prendas”. Se esta era aceite, estava feito o pedido particular e, desde essa altura, ficavam “comprometidos”, dependendo apenas do consentimento dos pais para se anunciar o noivado. Uma vez dado o consentimento dos pais e tendo estes chegado a um acordo quanto ao “dote”, a cantarinha servia então para guardar as “prendas” (em ouro) que o noivo e os pais da noiva ofereciam. Este uso há muito, já, que foi posto de parte. Hoje só resta a tradição.


Fazendo cantarinhas... Maria Fernanda diz como as faz

“A cantarinha é uma peça muito requintada. Tem de começar com um pé elegante, fazendo a barriga, afunilando o pescoço e depois o bojo. Tem um pescoço mais apertado do que o cântaro normal.

A cantarinha é feita por inteiro. Deixa-se secar de um dia para o outro para que ela possa aguentar o peso das asas que se colocam no dia seguinte e que se deixam secar mais um dia para que a secagem fique uniforme.

Em seguida dou o banho de ocre e deixo secar, de novo, antes de aplicar a mica.

Depois faço umas incisões no barro. Pego na mica moída e coloco-a nas rosetas que são uma espécie de carimbos e aplico. “


PERDIGÃO, Teresa (2003). Tesouros do Artesanato Português . Vol. III. Olaria e Cerâmica . Lisboa: Editorial Verbo, p. 21.